Estou de volta ao frasco. Bem vindo a mim e a tudo que é meu. Estou de volta às coisas pequenas que cabem no frasco, mas que se tornam maiores do que eu e gigantes para a vida. Estou de volta à minha pele, à minha casca, ao meu vidro. Não incomodes, não batas ao vidro, não tires a tampa, não abanes o frasco... Sou frágil, posso partir!
O amor deve ajudar a libertar as pessoas, não a prendê-las. O amor deve dar asas e não cortar as pernas. O amor deve dar espaço e não sufocar. O amor deve alargar horizontes e não limitar a visão. O amor deve ser dado e não cobrado, comandado, controlado.
O amor deve ser amor!
Hoje é o dia Mundial da Poesia e como tal não poderia deixar passar esse dia em branco! Deixo-vos, não um poema meu, mas de uma grande senhora que nos deixou uma obra simplesmente divina. Partilho convosco "O jardim e a noite" de Sophia de Mello Breyner Andresen.
Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.
Entre os canteiros cercados de buxo,
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.
Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente,
Calaram-se os meus sonhos perdidos.
Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.
Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.
Docemente a sonhar entra a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e inatingível
Sem me deixar penetrar no seu segredo
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.
Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.
Só o vento passou e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.
Que a Primavera traga a paz que o Inverno não sabe dar, a alegria que o Outono não consegue trazer, e a tranquilidade que o Verão não permite alcançar. Bem-vinda!